Solidão no exterior: por que nos sentimos sozinhos mesmo rodeados de pessoas

Por Josi Serpa | Junho de 2026 | 8 min de leitura | Base científica · PubMed

Josi Serpa — Psicóloga Clínica

CRP 12/28972 · Especialista em TCC e Terapia do Esquema · Atendimento online

Você tem colegas de trabalho, vizinhos, grupos de brasileiros — mas ao final do dia fecha a porta e se sente completamente sozinho. Não é falta de esforço. Não é ingratidão. É um dos efeitos mais comuns e menos falados de viver fora do Brasil: a solidão que não aparece nas fotos.

A solidão que ninguém vê

Você está em uma festa com dezenas de pessoas e se sente completamente sozinho. Tem colegas de trabalho, conhecidos no bairro, grupos de WhatsApp — mas não tem ninguém com quem ligar às onze da noite quando algo vai mal. Essa é a solidão do exterior: não a ausência de pessoas, mas a ausência de vínculos reais.

A solidão entre brasileiros que vivem fora do Brasil é um fenômeno amplamente documentado — e sistematicamente subestimado. Ela não aparece nas fotos do Instagram. Não é compatível com a narrativa de quem ‘deu certo lá fora’. Mas está presente em uma parcela significativa das pessoas que escolheram reconstruir a vida em outro país.

Como já exploramos nos artigos sobre luto migratório e choque cultural, viver fora envolve perdas que se acumulam silenciosamente — e a solidão é uma das mais pesadas e menos faladas entre elas.

“Solidão não é a ausência de pessoas ao redor. É a ausência de pertencimento — a sensação de não ser verdadeiramente visto, conhecido e conectado.”— Brené Brown, pesquisadora de conexão humana e vulnerabilidade.

A solidão no exterior está pesando? Conversa em português, no seu fuso.

Por que é tão difícil fazer amizades reais no exterior

Fazer amigos adultos é difícil em qualquer lugar do mundo. Fazer amigos adultos em um país diferente, com outra língua, outra cultura e outro ritmo relacional é exponencialmente mais difícil.

Barreiras específicas para brasileiros no exterior

  • ✈️O brasileiro é acostumado a relações calorosas, informais e físicas — que muitas culturas do Norte Global não reproduzem com a mesma facilidade
  • ✈️Diferenças de língua criam uma camada de esforço que cansa e inibe a espontaneidade
  • ✈️A cultura local pode valorizar privacidade e independência de formas que parecem distância ou falta de interesse
  • ✈️O ciclo de conexão é mais lento — amizades que no Brasil se formam em semanas levam meses ou anos no exterior
  • ✈️Grupos de brasileiros no exterior oferecem pertencimento imediato — mas podem criar uma bolha que dificulta a integração real
  • ✈️A autoestima baixa e o perfeccionismo amplificam o medo de ser julgado e dificultam a vulnerabilidade necessária para criar vínculos

Os diferentes tipos de solidão no exterior

Solidão social

A ausência de uma rede de amizades e convívio cotidiano. É a solidão do fim de semana sem planos, do aniversário sem quem comemorar perto, do dia difícil sem com quem tomar um café.

Solidão emocional

A ausência de vínculos íntimos — pessoas com quem você pode ser vulnerável, mostrar o que realmente sente, sem precisar performar. É mais profunda e mais dolorosa do que a solidão social. Pode existir mesmo cercado de gente.

Solidão existencial

A sensação de não pertencer completamente a nenhum lugar — nem ao país de destino, nem mais ao Brasil. É a solidão do ‘entre mundos’, muito comum entre brasileiros com mais de dois anos fora. Como exploramos no artigo sobre luto migratório, essa perda de pertencimento é uma das sete dimensões do luto migratório.

Quando a solidão vira problema de saúde mental

A solidão crônica não é apenas desconfortável — ela tem consequências documentadas para a saúde física e mental. A OMS criou em 2023 uma Comissão Internacional sobre Conexão Social, reconhecendo a solidão como uma crise global de saúde pública.

  • Aumento do risco de ansiedade e depressão
  • Comprometimento do sistema imunológico
  • Aumento do risco cardiovascular comparável ao tabagismo
  • Declínio cognitivo acelerado
  • Tendência a padrões de sono irregulares e insônia
  • Amplificação de padrões como dependência emocional — o isolamento intensifica a busca por aprovação

A solidão no exterior é real, tem nome e tem tratamento. Estou aqui — em português, onde quer que você esteja.

O que a ciência diz sobre solidão em migrantes

Evidência científica — PubMed

Uma revisão sistemática publicada no PubMed (Nwofe et al., 2024 — PubMed ID: 39700314) investigou intervenções para reduzir isolamento social e solidão em populações de minorias étnicas em países da OCDE. Os resultados confirmaram que pessoas imigrantes são particularmente vulneráveis à solidão devido a diferenças culturais, barreiras linguísticas, baixa renda e discriminação — e que intervenções psicossociais, incluindo terapia online, são eficazes para reduzir esses índices.

Uma revisão sistemática publicada no PubMed (Nguyen et al., 2024 — PubMed ID: 39293283) com dados de refugiados em países de alta renda confirmou que solidão e isolamento social são altamente prevalentes na população migrante — com prevalência global estimada em 24,7% — e estão diretamente associados a depressão, ansiedade e TEPT, reforçando a necessidade de suporte psicológico culturalmente adaptado.

Nwofe ES et al. (2024) — Social isolation in minority ethnic populations · PubMed ID: 39700314 →   Nguyen TP et al. (2024) — Loneliness in refugees and immigrants · PubMed ID: 39293283 →

O que ajuda a combater a solidão no exterior

No curto prazo

  • Criar rotinas que envolvam contato humano regular — academia, aula, voluntariado, clube
  • Investir em grupos de brasileiros como base segura — sem se fechar neles
  • Aceitar convites mesmo quando parece mais fácil ficar em casa
  • Manter o contato com família e amigos no Brasil — sem deixar que substitua a construção de vínculos locais
  • Cuidar da qualidade dos vínculos que já existem antes de buscar quantidade

No médio e longo prazo

  • Investir no idioma local — a fluência abre portas relacionais que o inglês funcional não abre
  • Explorar a cultura local com curiosidade genuína — não apenas tolerância
  • Buscar psicoterapia — para processar o luto da solidão e construir recursos emocionais reais
  • Reconhecer que pertencimento se constrói com tempo e vulnerabilidade — não com desempenho
Você não está sozinho por não ser suficientemente interessante, aberto ou esforçado. Você está sozinho porque construir vínculos reais leva tempo — e ninguém te contou isso antes de embarcar.

Para continuar lendo — artigos desta semana

🌱 Autoestima

Perfeccionismo: quando a busca pela excelência vira autossabotagem 

💬 Relacionamentos e Vínculos

Burnout o que é, sintomas, causas e como se recuperar”

1. Nwofe ES et al. Interventions to reduce social isolation and loneliness among minority ethnic populations in OECD countries. PLoS ONE / PubMed ID: 39700314, 2024

2. Nguyen TP et al. Loneliness and social isolation amongst refugees resettled in high-income countries. Social Science & Medicine / PubMed ID: 39293283, 2024

3. WHO Commission on Social Connection. Loneliness as a global public health issue. Geneva: WHO, 2023.

4. Brown B. Braving the Wilderness: The Quest for True Belonging. Random House, 2017.

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