Ninguém te disse que emigrar seria um luto. Te disseram que seria uma aventura, uma oportunidade, um recomeço. E pode ser tudo isso — e ainda assim doer de um jeito que você não sabe bem nomear. A saudade que carrega não é só de pessoas. É de uma versão de você mesmo que ficou para trás.
Quando alguém perde um familiar, a dor é reconhecida. Há rituais, condolências, afastamento do trabalho, espaço para chorar. Mas quando alguém deixa seu país, sua família, seus amigos, sua língua e tudo que conhece para recomeçar do zero em outro lugar — essa perda raramente recebe o mesmo reconhecimento. E ela deveria.
O luto migratório é o conjunto de perdas — concretas e simbólicas — que a experiência migratória provoca. Ele foi descrito pelo psiquiatra espanhol Joseba Achotegui, que identificou que migrar envolve sete tipos de luto simultâneos: família, língua, cultura, terra, status social, pertencimento a um grupo e riscos físicos da migração.
Como exploramos no artigo sobre choque cultural, viver fora do Brasil envolve perdas que se acumulam silenciosamente — e o luto migratório é o coração emocional dessa experiência.
“Ao contrário do luto por morte, o luto migratório é parcial, recorrente e múltiplo. Parcial porque a perda não é definitiva — a família ainda existe, o país ainda existe. Recorrente porque cada contato com a origem o reativa. Múltiplo porque são sete perdas simultâneas.”— Achotegui J. Migratory grief, as partial, recurrent and multiple grief. Int J Fam Commun Med, 2024.
Mora fora e o peso da saudade e das perdas está maior do que você consegue carregar sozinho? Estou aqui.
Segundo Achotegui, o brasileiro que deixa o país carrega simultaneamente sete camadas de perda:
O luto migratório nem sempre se parece com tristeza óbvia. Frequentemente aparece disfarçado de outros sintomas — que por isso são confundidos com outros problemas ou simplesmente ignorados.
O luto migratório e a depressão têm sintomas parecidos — mas são diferentes. O luto migratório é uma resposta normal e esperada a perdas reais. A depressão é um transtorno que requer tratamento específico. O problema é que um luto não processado pode evoluir para depressão.
A diferença mais importante: no luto migratório, os sintomas costumam estar conectados a gatilhos específicos — ligações com família, datas comemorativas, notícias do Brasil. Na depressão, a tristeza é mais difusa, persistente e desconectada de contexto. Se você tem dúvida, busque avaliação profissional — é exatamente para isso que a psicoterapia online em português existe.
Você reconhece essas perdas na sua experiência? Conversar sobre isso pode ser o primeiro passo para processá-las.
Uma revisão sistemática publicada no PubMed (Renner et al., 2024) — a primeira a investigar sistematicamente a relação entre luto migratório e psicopatologia — analisou estudos em PubMed/Medline, PsycINFO e Web of Science. Os resultados confirmaram que todos os estudos incluídos reportaram associação significativa entre luto migratório e sofrimento psicológico, incluindo depressão, ansiedade e TEPT.
Um estudo publicado no PubMed (Chang et al., 2024) com imigrantes de primeira geração demonstrou que a conexão com a cultura de origem e com a comunidade no país de destino moderam os efeitos do luto migratório sobre depressão e satisfação com a vida — apontando a psicoterapia culturalmente adaptada como intervenção-chave para essa população.
Renner A et al. (2024) — Migratory grief: a systematic review · PubMed ID: 38435975 → Chang YJ et al. (2024) — Migratory grief in Korean American immigrants · PubMed ID: 37347887 →O luto migratório precisa de espaço para ser reconhecido e nomeado — o que raramente acontece no dia a dia de quem mora fora. A pressão de ‘estar bem’, de ‘dar certo’, de não preocupar a família no Brasil cria uma camada de silêncio sobre perdas que precisam ser processadas.
Na TCC, trabalhamos os pensamentos automáticos que complicam o luto — como ‘não tenho direito de sofrer porque foi minha escolha’, ‘preciso estar feliz para justificar ter saído’ ou ‘se eu admitir que sinto falta, significa que errei’. Esses pensamentos bloqueiam o processamento natural das perdas.
A Terapia do Esquema complementa esse trabalho investigando como o luto migratório ativa esquemas mais antigos — como medo de abandono, síndrome do impostor ou autoestima baixa — que já existiam antes da migração e que o novo contexto intensificou.
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1. Renner A et al. Migratory grief: a systematic review. Frontiers in Psychiatry / PubMed ID: 38435975, 2024
2. Chang YJ et al. Migratory grief and mental health in first-generation Korean American immigrants. PubMed ID: 37347887, 2024
3. Achotegui J. Migratory grief, as partial, recurrent and multiple grief. Int J Fam Commun Med, 2024; 8(2): 44–47.
4. Hynie M. The Social Determinants of Refugee Mental Health in the Post-Migration Context. Canadian Journal of Psychiatry, 2018.

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